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CARTA DE REPÚDIO AO MARACATU AROEIRA

logo CARTA DE REPÚDIO AO MARACATU AROEIRA

Por meio desta carta tornamos público o nosso repúdio à situação ocorrida no dia 25 de abril, durante a apresentação do Grupo Maracatu Aroeira, na Rua São Francisco, em Curitiba, quando um dos integrantes do grupo (um homem branco) utilizou de violência contra uma mulher negra, dando um “leve” toque com uma das baquetas, parte de um instrumento de percussão, com o argumento de que ela estava “atravessando” a apresentação. Posteriormente ao início da discussão que se gerou por causa disso, outro membro do grupo (uma mulher branca) utilizou um discurso elitista e autoritário proferido aos gritos de: “você sabe com quem está falando?”; “faz dez anos que estudo o Maracatu”, “sou branca de alma negra”; dentre outras colocações.

“Antigamente eles exploravam nossa mão de obra, nosso trabalho físico, agora eles exploram nossas ideias, a nossa cultura”. (Josias da Vila Monarca)[1]. Essa frase aciona uma indagação que nós negras/os fazemos toda a vez que situações como essa acontecem, rememorando uma espécie de apropriação indevida, em que uma mulher negra é deslegitimada por pessoas brancas sobre um processo cultural que faz parte da cultura afro-brasileira. Ser questionada sobre “atravessar” uma apresentação não deveria gerar agressões físicas e verbais com cunho racista e fundamentado em um discurso de autoridade.

De alguma forma, essa prática nos faz refletir sobre o perfil dos membros do grupo: em sua maioria universitárias/os, brancas/os e que se reúnem em prol da valorização de uma manifestação cultural tão rica para a sociedade em geral, sobretudo para sociedades como a curitibana que omite sua negritude. Mas é justamente aí que se revela o problema: ao propor a valorização de uma cultura, baseada em critérios de organização para não se “atravessar”, e o ataque a uma mulher negra que “atravessa” sua apresentação, onde ficam os princípios de valorização da cultura afro-brasileira? A teoria, em que brancas/os consideram-se “de alma negra” não se aplica à prática? O que é ser uma mulher negra, para o Maracatu Aroeira? O que é ser uma pessoa negra, para o Maracatu Aroeira?

É ser branca/o (“de alma negra”) mas agredir uma mulher negra (de alma negra)?

É ser universitária/o (intelectual pesquisadora/or de Maracatu) e não ter condições acadêmicas de argumentar em favor do respeito a sua apresentação?

Esse tipo de apropriação afasta o Maracatu de seu lugar de origem que é a periferia e os bairros das cidades, espaços esses compartilhados sobretudo por pessoas negras. Um dos possíveis argumentos contrários a esse questionamento poderia ser o fato de que o Maracatu é aberto para todas/as, negras/os e não negras/os, e caso o perfil desse grupo não represente em sua composição a diversidade étnico-racial que se espera de grupos de manifestações culturais afro-brasileiros, é porque negras/os não querem.

Argumentar que a população negra não se insira no Maracatu “porque não quer”, além de representar uma estratégia confortável de defesa, revela-se simplista, considerando os espaços sociais ocupados por negras/os de periferia e o grupo em questão. Da mesma maneira, argumentar que a baixa representatividade de negras/os no Maracatu deve-se à ausência destes em Curitiba é retroalimentar um imaginário equivocado e racista de que a capital do Paraná é a Europa brasileira, não só pelas características climáticas, mas também por sua população. Tais argumentos apresentam-se inconsistentes e incoerentes diante dos dados apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que informa que somos 19,7%[2] da população curitibana.

Reconhecemos que o Maracatu é extremamente necessário quando este faz conexão de fato com a cultura afro-brasileira como forma de resistência, como forma de resgatar o histórico de lutas e conquistas, quando este é direcionado ao empoderamento da população negra. Lembramos ainda que a apropriação cultural foi uma política que buscou ainda buscar apagar traços da cultura negra, tornando-os símbolos nacionais (samba, feijoada, capoeira, etc.) na tentativa de desmobilizar o fortalecimento da identidade da população negra e marginalizá-la ainda mais.

Com esse manifesto exigimos a devida atenção do grupo Maracatu Aroeira quanto a questões ligadas à apropriação cultural, ações racistas e todos os desdobramentos e implicações que estes apresentam na vida de negras e negros.

Desta forma, aguardamos uma resposta do grupo quanto ao ocorrido, uma vez que não se trata apenas do uso de algo pertencente à cultura negra, mas também de respeito a mulheres e homens negros e demais pessoas que se encontravam no momento da apresentação. Ficamos a imaginar quantas vezes essa cena de desrespeito pode ter ocorrido anteriormente pelo grupo ou por membros dele, uma vez que a cultura negra é tão rica, bela e cheia de significados que não deveria ser representada da forma como ocorreu na data em questão.

Assinam essa carta:

Cintia Ribeiro (Ciências Sociais UFPR)

Alan Felipe dos Santos (Ciências Sociais UFPR)

Nuno José (Direito UFPR)

Eduardo José de Araújo (História UFPR)

Brinsan N’tchala (Direito Unicuritiba)

Priscila Souza (Socióloga – UFPR)

Natália Luiza (Ciências Sociais UFPR)

Margoth Mendes da Cruz (Psicologia UFPR)

Daiane da Silva Vasconcelos (Psicologia UFPR)

Coletivo Sou Neguinh@ (UFPR)

Jorge Santana (Historiador – UFPR)

Watena Ferreira N’tchala (Engenharia Mecânica UFPR)

Angélica Roxinsky de Carvalho (Ciências Sociais UFPR)

Andressa do Rosário Damaceno (Gestão Ambiental UFPR Litoral)

Elisama Kissenia de Souza (Agronomia UFPR)

Kesia Samay de Souza (Engenharia Florestal UFPR)

Júlio Sérgio da Silva Monteiro (Educador Musical – UFPR)

Camila Maia (Ciências Sociais UFPR)

Débora Fidelis (Ciências Sociais UFPR)

Débora Cristina de Araújo (Doutora em Educação UFPR)

Otavio Luiz Costa (Ciências Sociais UFPR)

[1] CARVALHO, Ernesto Ignacio de. Diálogo de negro, monólogo de branco: transformações e apropriações musicais no maracatu de baque virado. Recife, 2007.

[2]http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/197-da-populacao-de-curitiba-sao-negros-ou-pardos/31360

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Download Filme Canção da Liberdade (Freedom Song, EUA, 2000)

Por: Priscila Uirá de Souza

 

“Quando não se tem nada na vida, a liberdade pode ser a primeira grande conquista”

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Nos anos 60, a pequena cidade de Quinlan, Mississipi, encontra-se dividida graças ao Movimento pelos direitos civis. Esse ativo momento da sociedade americana é registrado pelos olhos atentos de um adolescente afro-americano (Vicellous Reon Shannon) que, inspirado pela chegada de um organizador do Comitê Coordenador Estudantil para a Não-Violência, engaja-se no processo, correndo risco de desagregar totalmente a cidade e, principalmente, a relação com o seu pai (Danny Glover). Glover aliás, é um dos produtores executivos deste filme dirigido por Phil alden Robinson, que conta com a trilha sonora do consagrado compositor James Horner.

Duração: 150 min.

Idioma: Legendado – PT/BR

Tamanho: 1,13 GB (rmvb)

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PARTIU ROLEZINHO?

Por: Priscila Uirá de Souza
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  Muito tem se falado do tal “Rolezinho”, que nada mais são do que o encontro de jovens de bairros periféricos, que se reúnem como muitos jovens por aí fazem, isso não era problema até eles escolherem como ponto de encontro os shoppings de São Paulo.

Opiniões das mais diversas surgem no meio midiático e por fim nos temíveis comentários, e é em ambos que vemos qual a verdadeira cara da sociedade.

           Há quem argumente sobre a ótica social, outros vêem o ângulo racial, mas o que podemos afinal tirar de tudo isso?

           Os rolézinhos hoje são uma forma de resistência, tanto racial como social aos mecanismos que impedem a ocupação de negros e pobres em determinados espaços públicos, tanto geograficamente quanto socialmente. O Brasil ainda tende a separar aqueles que incomodam, e estes são todos que pertencem a esta massa pobre, não branca, gays, lésbicas, transsexuais, e demais grupos sociais considerados diferentes, que ousam ultrapassar o espaço que a princípio não deveria ser seu.

Em entrevista recente ao site Geledés, o professor Alexandre Barbosa, Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que se dedica a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas, indaga o seguinte:

“Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”

Por mais que algumas pessoas não admitam, existe sim uma segregação enraizada na cultura brasileira, e esta segregação é sim social e racial. Da mesma forma que os jovens ocuparam espaços que antes não lhes era permitido nos EUA, os jovens brasileiros de diversos grupos tem se apropriado de espaços antes destinados apenas a um determinado grupo social.

Tudo bem ser preto e pobre, desde que seja bem longe da gente.

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                         Franklin McCain (de óculos) e outros 3 estudantes, em 1 de Fevereiro de 1960, em Greensboro, na Carolina do Norte, sentaram-se no balcão de um snack-bar reservado a brancos. Pediram café e donuts e, quando recusaram servi-los ficaram ali sentados até a loja fechar. Voltaram no dia a seguir e em todos os seguintes – os movimentos de ocupação de espaço chamados sit-ins ajudou a incendiar a luta pela igualdade entre brancos e negros na América dos anos 1960. FOTO: Jack G. Koebes

 
E o Estado o que tem a ver com isso afinal?

A preocupação que mais parece preocupar o Estado é a de se livrar do problema ao invés de resolvê-lo. Não há qualquer interesse em resolver o problema social e racial que se arrasta desde o fim da escravidão.

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Se o Estado não consegue resolver o problema da desigualdade social é melhor escondê-la, como fez o estado do Rio de Janeiro com suas comunidades.

           Tive a oportunidade de presenciar em Curitiba anos atrás (entre 2006 e 2007) algo parecido com o que ocorre hoje nos shoppings de São Paulo. Havia ouvido falar em conversas na universidade que o shopping Estação estava barrando os jovens que eram tidos como “vileiros”, e um dia quando estava indo ao shopping com a minha irmã pude ver com meus próprios olhos o acontecido.

           Logo que estava chegando vi um destes “vileiros” na entrada e após uma abordagem do segurança deu meia volta e se afastou. Perguntei então ao segurança porque ele não estava deixando aqueles jovens entrarem. Segundo ele, há alguns dias atrás havia acontecido uma briga entre eles (vileiros) dentro do shopping e por segurança estavam barrando sua entrada. (A “cidade europeia” Lerniana precisa ser protegida da violência dessa gente e manter o seu estereótipo).

           O Estado então, quando permite que uma liminar seja lavrada para proibir a entrada destes jovens onde quer que seja, está demonstrando sua posição, sendo tal atitude, favorável a uma parcela da população, que é mínima, e precisa ser protegida destes “vândalos” que ainda por cima são funkeiros.

          Vemos vários posts compartilhados como este abaixo, que reforçam de forma equivocada, o imaginário de quem são estas pessoas que participam dos “rolezinhos”: funkeiros, desempregados, arruaceiros e etc. Isto nada mais é que evidenciar, rotular e excluir uma classe social que precisa ser combatida e cuja existência incomoda e envergonha a classe dominante.

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        A ocupação dos espaços sociais incomodam e muito, seja nos shoppings ou nas universidades (como é o caso da política de cotas que gera muita discussão) as políticas de inclusão foram apenas um pontapé na ferida social que o país carrega.

O que a sociedade em geral precisa ter em mente é que (parafraseando o blog Torres da Heresia) se hoje muitos têm uma opinião equivocada acerca dos movimentos que acontecem na sociedade, o que eu posso dizer para essas pessoas é que o mundo só muda quando existem pessoas como nós, que lutam contra os ditames de uma época. Se hoje temos algum tipo de liberdade e democracia é graças aos negros, mulheres e jovens “vagabundos e sem vergonhas” de épocas passadas que estiveram na luta enfrentando os moralismos e as instituições daquela época.

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