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Um Debate Sobre Apropriação Cultural entre Africanos e Negros Americanos

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Afropunk Festival 2015 – Brooklyn

Por: Priscila Uirá

Na primeira semana de setembro um artigo veio a tona acusando os negros americanos de apropriação cultural da cultura africana. O artigo assinado por Zipporah Gene intitulado “Black America, please stop appropriating African clothing and tribal marks.” expõe ao longo de seu texto que o uso de acessórios e estampas que vem ocorrendo, visualizado inclusive no festival Afropunk,  mesmo quando utilizados por pessoas negra seria apropriação cultural tendo em vista que “se você não se veste dessa forma todos os dias, ou tem uma filiação REAL, então  me diga por favor como isso não é uma ‘fantasia’?”.

Após a publicação do artigo várias respostas surgiram a ele, tanto de africanos como de americanos, abaixo vemos a resposta do site Fashion Ghana que considera o artigo desprezível e divisionista, diz que:

“Como um Africano na África,  e ao contrário de Zipporah Gene, a senhora que escreveu o artigo, não há um Africano em nosso país que se ressente de outras nações que adotam nossa cultura e qualquer um que nos visita vai saber isso. Na verdade, é o que as pessoas africanas têm esperado por um longo tempo. Eu mesmo cresci na África assistindo filmes americanos, vendo carros alemães, ouvindo músicas afro-americanas, este é um momento de orgulho e hora em que a nossa cultura está se tornando a norma, e é esmagadora.

Pela primeira vez em muito tempo, filmes Africanos, música e moda estão em alta. Eu posso ir no youtube e ver que uma canção de Wizkid tem mais hits do que a de um artista mainstream americano. Que quase todos os países ocidentais tem uma semana de sucesso de Moda Africana. Artistas estão lucrando, alfaiates estão se beneficiando, e muito mais. Cada vez que vamos fazer uma entrega de uma encomenda em nosso site, sentimo-nos bem de ver o envio de granéis de roupas de outros ganeses no exterior. […] acredito que a autora não representa 0,001% dos africanos. 

Em primeiro lugar, África/Africanos não têm a patente das estampas, […] Nós não somos os principais fabricantes de estampa, nem os autores. […] Eu sou a favor de quem quer adotar a moda Africana de qualquer maneira.

A moda africana, no entanto, tem sido uma mistura de várias influências de várias contribuições de fora. Os vestidos longos que os homens vestem tem influências do mundo muçulmano e árabe, as estampas têxteis foram influências da Ásia, e alguns estilos ocidentais. Tudo misturado com a nossa própria cultura nativa, que por sinal é diferente em cada país. 

Aqui está uma explicação para a confusão em relação ao mundo Dashiki. Dashiki é simplesmente a parte superior, como de um conjunto ou traje. No entanto, a maioria dos afro-americanos usavam Dashikis com a estampa Angelina nela, eventualmente, tornou-se a norma chamar o padrão Angelina de Dashiki. O que significava que mesmo um vestido com estampa Angelina eventualmente adotou o nome Dashiki. Se isso perturba-a, então ela não deve saber que um tecido Dashiki é fabricado na África, mas igualmente na China ou Holanda.”

dashiki

Dashikis

outro posicionamento em resposta é o de Bankole Johnson, segundo ele:

“Como um Nigeriano Yoruba nascido e criado em Lagos, eu acho que, como um amigo meu disse, a coisa mais importante nesta situação é ‘usar este momento, ou tendência, como você chamou, como um meio para educar afro-americanos sobre as vestes e as marcações e parar de ser mesquinho [como você aludiu no seu artigo]’. Eu não vejo nada de errado com as pessoas adotando aspectos da cultura de outras pessoas (neste caso, os afro-americanos não são necessariamente outras pessoas. Em muitos aspectos, eles são africanos como você. Eles só foram ‘enviados para fora’ séculos atrás[…]), desde que eles deem crédito, não rotulem novamente ou reivindiquem como o deles.

Digo aproveitar esta oportunidade para ensinar-lhes os nomes dos tecidos como tecido Ankara, tecido Kente, tecido Aso Oke, tecido George, etc. Deixe-os saber o que eles estão usando, em vez de vê-los chamar por nomes errados como Dashiki. Isso é o que eu faço com meus amigos. Eu corrigi-os quando eu posso e eles tendem a apreciar. Para mim, eu adoro a adoção de qualquer aspecto da minha cultura por qualquer pessoa. Eu só quero que você saiba os nomes corretos e não afirme que é seu.

[…] No geral, eu desejo sempre que africanos e afro-americanos se unam em muitos aspectos, mas nós (em ambos os lados) parecemos criar sempre uma razão (como neste artigo) para separar os dois lados um do outro ainda mais. Isso é o que faz este artigo.” 

outro Nigeriano Yoruba faz também suas considerações:

“Eu sou Yoruba. Eu sou nigeriano. Eu achei este artigo extremamente preocupante em muitos níveis. Eu nunca na minha vida pensei nada de errado em ver meus irmãos e irmãs africanos na diáspora (os afro-americanos, afro-brasileiros, afro-dominicanos, etc) vestindo estampas Africanas. Eu amo isso. Isto me faz feliz. Isso me lembra de nossa herança compartilhada que nos foi roubado pelo tráfico de escravos africanos. Estou certo de que ele vai fazer os nossos antepassados feliz. Isto não é apropriação cultural. Isto é chamado de memória genética. DNA tem uma memória […]. 

Para a escritora, […] você está ferindo o sentimento de milhões de africanos na diáspora e os africanos na pátria que ainda estão entristecidos com o tráfico de escravos africano e suas conseqüências para o continente e as pessoas negras em todo o mundo. Peço desculpas em nome dos […] Yoruba nigerianos para qualquer afro-americano que vive na diáspora que foi insultado por este artigo. Você não deve ser insultado por lembrar e reconhecer sua casa depois de 400 anos em uma terra estrangeira!!”

outra resposta vem de Julius Claybron desta vez um americano nos EUA que afirma:

“Não é Apropriação, é cura. Sim, seus costumes e tradições étnicas são importantes e não devem ser banalizados. Mas quem pode dizer que minha colocação de vestimenta tradicional Africana não é uma parte do meu processo de apreciação? Claro, há negros que não têm apreço ou conhecimento da história Africano e não se importam em saber. Tudo o que sei é que eles querem estar na moda e bonito para o dia. Mas essa não é uma razão suficiente para afastar os negros não-africanos e nos impedir de se arranjarem com algo que é uma parte de nós […].

[…] Então, se eu, uma pessoa que vem de uma tradição secular que me ensinou a me odiar e tudo sobre de onde eu venho, decidir entrar em muitos costumes, línguas, comidas, danças, expressões que os muitos países em África tem para oferecer, a última coisa que eu estou fazendo é se apropriar. O que estou fazendo é descolonizar, curando, e me reconectar com a mesma coisa que foi tirado de mim.”

Muitas outras respostas podem ser visualizadas na postagem do artigo original, tanto favoráveis como contrárias, cabe a cada um pensar a respeito.

Por fim, minhas considerações a respeito disso é que, dentro do contexto pelos quais passaram nossos ancestrais que tiveram sua cultura dizimada e expropriada, ouvir que os negros de outros países de fora da África estão apropriando-se da cultura africana é de fato muito triste e prejudicial, pois aquilo que une e fortalece um grupo são esses pequenos traços identitários que partilhamos e nos reconhecemos. Além do mais, penso que se for impedido aos negros da diáspora usar estampas africanas ou qualquer outro símbolo que o conecta à sua ancestralidade ficaremos então em um limbo identitário, um não lugar, onde não nos é permitido ser negro e nem branco.

O assunto apropriação cultural precisa ser debatido sim, e tem sido apontado por diversas vezes inclusive por artistas como fez Azealia Banks, há pontos no texto de Zipporah Gene para se desenvolver e outros apenas para serem deixados de lado. De fato o mercado da moda e o capitalismo se apropria de muitas culturas, mas o desejo dos negros por sua conexão e reconhecimento de sua ancestralidade é verdadeiro, não apenas passageiro porque parece legal como a autora expõe.

Acredito que o que precisamos de fato é estabelecer uma conexão com o continente africano ao invés de criarmos mais distanciamentos, afinal já bastam os séculos que nos mantiveram afastados e nos desconstruíram.

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