Opinião

Um Debate Sobre Apropriação Cultural entre Africanos e Negros Americanos

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Afropunk Festival 2015 – Brooklyn

Por: Priscila Uirá

Na primeira semana de setembro um artigo veio a tona acusando os negros americanos de apropriação cultural da cultura africana. O artigo assinado por Zipporah Gene intitulado “Black America, please stop appropriating African clothing and tribal marks.” expõe ao longo de seu texto que o uso de acessórios e estampas que vem ocorrendo, visualizado inclusive no festival Afropunk,  mesmo quando utilizados por pessoas negra seria apropriação cultural tendo em vista que “se você não se veste dessa forma todos os dias, ou tem uma filiação REAL, então  me diga por favor como isso não é uma ‘fantasia’?”.

Após a publicação do artigo várias respostas surgiram a ele, tanto de africanos como de americanos, abaixo vemos a resposta do site Fashion Ghana que considera o artigo desprezível e divisionista, diz que:

“Como um Africano na África,  e ao contrário de Zipporah Gene, a senhora que escreveu o artigo, não há um Africano em nosso país que se ressente de outras nações que adotam nossa cultura e qualquer um que nos visita vai saber isso. Na verdade, é o que as pessoas africanas têm esperado por um longo tempo. Eu mesmo cresci na África assistindo filmes americanos, vendo carros alemães, ouvindo músicas afro-americanas, este é um momento de orgulho e hora em que a nossa cultura está se tornando a norma, e é esmagadora.

Pela primeira vez em muito tempo, filmes Africanos, música e moda estão em alta. Eu posso ir no youtube e ver que uma canção de Wizkid tem mais hits do que a de um artista mainstream americano. Que quase todos os países ocidentais tem uma semana de sucesso de Moda Africana. Artistas estão lucrando, alfaiates estão se beneficiando, e muito mais. Cada vez que vamos fazer uma entrega de uma encomenda em nosso site, sentimo-nos bem de ver o envio de granéis de roupas de outros ganeses no exterior. […] acredito que a autora não representa 0,001% dos africanos. 

Em primeiro lugar, África/Africanos não têm a patente das estampas, […] Nós não somos os principais fabricantes de estampa, nem os autores. […] Eu sou a favor de quem quer adotar a moda Africana de qualquer maneira.

A moda africana, no entanto, tem sido uma mistura de várias influências de várias contribuições de fora. Os vestidos longos que os homens vestem tem influências do mundo muçulmano e árabe, as estampas têxteis foram influências da Ásia, e alguns estilos ocidentais. Tudo misturado com a nossa própria cultura nativa, que por sinal é diferente em cada país. 

Aqui está uma explicação para a confusão em relação ao mundo Dashiki. Dashiki é simplesmente a parte superior, como de um conjunto ou traje. No entanto, a maioria dos afro-americanos usavam Dashikis com a estampa Angelina nela, eventualmente, tornou-se a norma chamar o padrão Angelina de Dashiki. O que significava que mesmo um vestido com estampa Angelina eventualmente adotou o nome Dashiki. Se isso perturba-a, então ela não deve saber que um tecido Dashiki é fabricado na África, mas igualmente na China ou Holanda.”

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Dashikis

outro posicionamento em resposta é o de Bankole Johnson, segundo ele:

“Como um Nigeriano Yoruba nascido e criado em Lagos, eu acho que, como um amigo meu disse, a coisa mais importante nesta situação é ‘usar este momento, ou tendência, como você chamou, como um meio para educar afro-americanos sobre as vestes e as marcações e parar de ser mesquinho [como você aludiu no seu artigo]’. Eu não vejo nada de errado com as pessoas adotando aspectos da cultura de outras pessoas (neste caso, os afro-americanos não são necessariamente outras pessoas. Em muitos aspectos, eles são africanos como você. Eles só foram ‘enviados para fora’ séculos atrás[…]), desde que eles deem crédito, não rotulem novamente ou reivindiquem como o deles.

Digo aproveitar esta oportunidade para ensinar-lhes os nomes dos tecidos como tecido Ankara, tecido Kente, tecido Aso Oke, tecido George, etc. Deixe-os saber o que eles estão usando, em vez de vê-los chamar por nomes errados como Dashiki. Isso é o que eu faço com meus amigos. Eu corrigi-os quando eu posso e eles tendem a apreciar. Para mim, eu adoro a adoção de qualquer aspecto da minha cultura por qualquer pessoa. Eu só quero que você saiba os nomes corretos e não afirme que é seu.

[…] No geral, eu desejo sempre que africanos e afro-americanos se unam em muitos aspectos, mas nós (em ambos os lados) parecemos criar sempre uma razão (como neste artigo) para separar os dois lados um do outro ainda mais. Isso é o que faz este artigo.” 

outro Nigeriano Yoruba faz também suas considerações:

“Eu sou Yoruba. Eu sou nigeriano. Eu achei este artigo extremamente preocupante em muitos níveis. Eu nunca na minha vida pensei nada de errado em ver meus irmãos e irmãs africanos na diáspora (os afro-americanos, afro-brasileiros, afro-dominicanos, etc) vestindo estampas Africanas. Eu amo isso. Isto me faz feliz. Isso me lembra de nossa herança compartilhada que nos foi roubado pelo tráfico de escravos africanos. Estou certo de que ele vai fazer os nossos antepassados feliz. Isto não é apropriação cultural. Isto é chamado de memória genética. DNA tem uma memória […]. 

Para a escritora, […] você está ferindo o sentimento de milhões de africanos na diáspora e os africanos na pátria que ainda estão entristecidos com o tráfico de escravos africano e suas conseqüências para o continente e as pessoas negras em todo o mundo. Peço desculpas em nome dos […] Yoruba nigerianos para qualquer afro-americano que vive na diáspora que foi insultado por este artigo. Você não deve ser insultado por lembrar e reconhecer sua casa depois de 400 anos em uma terra estrangeira!!”

outra resposta vem de Julius Claybron desta vez um americano nos EUA que afirma:

“Não é Apropriação, é cura. Sim, seus costumes e tradições étnicas são importantes e não devem ser banalizados. Mas quem pode dizer que minha colocação de vestimenta tradicional Africana não é uma parte do meu processo de apreciação? Claro, há negros que não têm apreço ou conhecimento da história Africano e não se importam em saber. Tudo o que sei é que eles querem estar na moda e bonito para o dia. Mas essa não é uma razão suficiente para afastar os negros não-africanos e nos impedir de se arranjarem com algo que é uma parte de nós […].

[…] Então, se eu, uma pessoa que vem de uma tradição secular que me ensinou a me odiar e tudo sobre de onde eu venho, decidir entrar em muitos costumes, línguas, comidas, danças, expressões que os muitos países em África tem para oferecer, a última coisa que eu estou fazendo é se apropriar. O que estou fazendo é descolonizar, curando, e me reconectar com a mesma coisa que foi tirado de mim.”

Muitas outras respostas podem ser visualizadas na postagem do artigo original, tanto favoráveis como contrárias, cabe a cada um pensar a respeito.

Por fim, minhas considerações a respeito disso é que, dentro do contexto pelos quais passaram nossos ancestrais que tiveram sua cultura dizimada e expropriada, ouvir que os negros de outros países de fora da África estão apropriando-se da cultura africana é de fato muito triste e prejudicial, pois aquilo que une e fortalece um grupo são esses pequenos traços identitários que partilhamos e nos reconhecemos. Além do mais, penso que se for impedido aos negros da diáspora usar estampas africanas ou qualquer outro símbolo que o conecta à sua ancestralidade ficaremos então em um limbo identitário, um não lugar, onde não nos é permitido ser negro e nem branco.

O assunto apropriação cultural precisa ser debatido sim, e tem sido apontado por diversas vezes inclusive por artistas como fez Azealia Banks, há pontos no texto de Zipporah Gene para se desenvolver e outros apenas para serem deixados de lado. De fato o mercado da moda e o capitalismo se apropria de muitas culturas, mas o desejo dos negros por sua conexão e reconhecimento de sua ancestralidade é verdadeiro, não apenas passageiro porque parece legal como a autora expõe.

Acredito que o que precisamos de fato é estabelecer uma conexão com o continente africano ao invés de criarmos mais distanciamentos, afinal já bastam os séculos que nos mantiveram afastados e nos desconstruíram.

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Boechat, Malafaia e a Pedrada ou O que de Fato Preocupa as Feministas Brancas?

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Por: Priscila Uirá

Sobre o caso do Boechat tenho que ressaltar algumas coisas sobre a repercussão que está tendo o caso:

Pelo que tenho visto sobre o que foi dito tivemos um primeiro momento de louvação e depois de apedrejamento (além da pedrada que a menina levou). Acusações de machismo e misoginia tem aparecido na rede relacionadas à fala de Boechat  em resposta ao Pastor Malafaia sobre a intolerância religiosa, além de imensas discussões a respeito do quanto ao politicamente correto.

Nós vivemos em uma sociedade em que sexo tende a ser proclamado como resolução de vida, se um homem ou mulher estão de mau humor é por falta de sexo, se uma mulher é lésbica é por que não conheceu um cara que a pegou de jeito, ao estuprador a pena deve ser paga com rola também (e se for de negões – já que a cadeia está cheia deles – melhor), se a mulher trai o homem é porque ele não é bom de cama e por aí vai.

Nossa cultura está envolta em alusões sexuais que permeiam inclusive a linguagem, nossos xingamentos são relacionados às práticas sexuais como: vai tomar no cu, porra, caralho, falta de rola, etc, outros xingamentos são relacionados à mulher como: puta, piranha, galinha, vagabunda, etc, e estão relacionados também às práticas sexuais. Sim são xingamentos machistas que relacionam e denunciam a mulher a uma moral que não deveria ser praticada enquanto os homens seriam a parte livre e isenta de qualquer cobrança sexual, a não ser que ele falhe nesse quesito aí ele vai ser o corno, o brocha…

A fala do Boechat reflete esse aspecto que está incutido na nossa cultura, e que segundo o politicamente correto deveria ser extinguido da mesma, sim, existem termos que acredito que não deveriam ser utilizados dado a carga histórica e sociocultural que carrega de forma camuflada, porém não devemos deixar a questão inicial de lado: a violência causada contra uma criança por conta da intolerância religiosa.

No caso do Boechat, o que as feministas e demais ativistas fizeram foi invisibilizar e silenciar um fato para dar lugar ao outro correspondente de sua luta. Deixaram de lado o fato de uma menina ter sido apedrejada por sua escolha religiosa (no caso o candomblé), uma menina que logo será uma mulher e encontrará um movimento feminista que não intersecciona suas demandas dando vazão a uma expressão antes de tudo.

A existência de vários eixos dentro do feminismo hoje se deve a casos como esse, em que uma questão de violência e intolerância religiosa contra uma criança é invisibilizado para dar luz às outras causas que algumas feministas parecem achar mais importantes.

Alguns feminismos hoje se tornam utópicos na medida em que reclamam roubo de protagonismos sem ver que estão se empoderando em cima de oprimidos também, esse é o feminismo que bate e esconde a mão, essa exclusão que acontece no feminismo ocorre de maneira simbólica, invisível e imperceptível pela não alteridade das mulheres não negras. Quem precisa de Malafaia quando algumas feministas podem executar o serviço?

O modelo de homem ideal da nossa sociedade precisa ser: hétero, branco, cristão. Provavelmente o modelo da mulher ideal seja o mesmo já que não parece ser interessante ao movimento feminista enfrentar Malafaias vida a fora tendo em vista toda a reviravolta que vemos, aliás não vemos, Malafaia, intolerância religiosa e violência física já não é mais o assunto.

Hoje em dia grande parte das pesquisas de gênero se faz através do recorte interseccional, interseccionalidade essa que foi criada pelas feministas negras por não se verem representadas pelo feminismo de classe média branco nos Estados Unidos. Nada muito diferente de hoje em dia, onde vemos nossos problemas serem jogados de escanteio enquanto elas debatem outros assuntos que parecem ser mais confortáveis a elas.

Nós meninas e mulheres negras enfrentamos todos os dias a real violência nas ruas enquanto certas feministas acreditam que a rola do Boechat é o verdadeiro inimigo. Malafaia continua despejando seu ódio livremente enquanto feministas caem nas armadilhas que todo movimento está propenso, acreditando que o inimigo é apenas aquele que está do lado de fora, achando que estão de fato combatendo algo.

Eu prefiro continuar sendo uma feminista negra interseccional a desviar do assunto como fazem as nossas “irmãs” que clamam por sororidade.

Que tal enegrecer o seu feminismo de fato?

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CARTA DE REPÚDIO AO MARACATU AROEIRA

logo CARTA DE REPÚDIO AO MARACATU AROEIRA

Por meio desta carta tornamos público o nosso repúdio à situação ocorrida no dia 25 de abril, durante a apresentação do Grupo Maracatu Aroeira, na Rua São Francisco, em Curitiba, quando um dos integrantes do grupo (um homem branco) utilizou de violência contra uma mulher negra, dando um “leve” toque com uma das baquetas, parte de um instrumento de percussão, com o argumento de que ela estava “atravessando” a apresentação. Posteriormente ao início da discussão que se gerou por causa disso, outro membro do grupo (uma mulher branca) utilizou um discurso elitista e autoritário proferido aos gritos de: “você sabe com quem está falando?”; “faz dez anos que estudo o Maracatu”, “sou branca de alma negra”; dentre outras colocações.

“Antigamente eles exploravam nossa mão de obra, nosso trabalho físico, agora eles exploram nossas ideias, a nossa cultura”. (Josias da Vila Monarca)[1]. Essa frase aciona uma indagação que nós negras/os fazemos toda a vez que situações como essa acontecem, rememorando uma espécie de apropriação indevida, em que uma mulher negra é deslegitimada por pessoas brancas sobre um processo cultural que faz parte da cultura afro-brasileira. Ser questionada sobre “atravessar” uma apresentação não deveria gerar agressões físicas e verbais com cunho racista e fundamentado em um discurso de autoridade.

De alguma forma, essa prática nos faz refletir sobre o perfil dos membros do grupo: em sua maioria universitárias/os, brancas/os e que se reúnem em prol da valorização de uma manifestação cultural tão rica para a sociedade em geral, sobretudo para sociedades como a curitibana que omite sua negritude. Mas é justamente aí que se revela o problema: ao propor a valorização de uma cultura, baseada em critérios de organização para não se “atravessar”, e o ataque a uma mulher negra que “atravessa” sua apresentação, onde ficam os princípios de valorização da cultura afro-brasileira? A teoria, em que brancas/os consideram-se “de alma negra” não se aplica à prática? O que é ser uma mulher negra, para o Maracatu Aroeira? O que é ser uma pessoa negra, para o Maracatu Aroeira?

É ser branca/o (“de alma negra”) mas agredir uma mulher negra (de alma negra)?

É ser universitária/o (intelectual pesquisadora/or de Maracatu) e não ter condições acadêmicas de argumentar em favor do respeito a sua apresentação?

Esse tipo de apropriação afasta o Maracatu de seu lugar de origem que é a periferia e os bairros das cidades, espaços esses compartilhados sobretudo por pessoas negras. Um dos possíveis argumentos contrários a esse questionamento poderia ser o fato de que o Maracatu é aberto para todas/as, negras/os e não negras/os, e caso o perfil desse grupo não represente em sua composição a diversidade étnico-racial que se espera de grupos de manifestações culturais afro-brasileiros, é porque negras/os não querem.

Argumentar que a população negra não se insira no Maracatu “porque não quer”, além de representar uma estratégia confortável de defesa, revela-se simplista, considerando os espaços sociais ocupados por negras/os de periferia e o grupo em questão. Da mesma maneira, argumentar que a baixa representatividade de negras/os no Maracatu deve-se à ausência destes em Curitiba é retroalimentar um imaginário equivocado e racista de que a capital do Paraná é a Europa brasileira, não só pelas características climáticas, mas também por sua população. Tais argumentos apresentam-se inconsistentes e incoerentes diante dos dados apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que informa que somos 19,7%[2] da população curitibana.

Reconhecemos que o Maracatu é extremamente necessário quando este faz conexão de fato com a cultura afro-brasileira como forma de resistência, como forma de resgatar o histórico de lutas e conquistas, quando este é direcionado ao empoderamento da população negra. Lembramos ainda que a apropriação cultural foi uma política que buscou ainda buscar apagar traços da cultura negra, tornando-os símbolos nacionais (samba, feijoada, capoeira, etc.) na tentativa de desmobilizar o fortalecimento da identidade da população negra e marginalizá-la ainda mais.

Com esse manifesto exigimos a devida atenção do grupo Maracatu Aroeira quanto a questões ligadas à apropriação cultural, ações racistas e todos os desdobramentos e implicações que estes apresentam na vida de negras e negros.

Desta forma, aguardamos uma resposta do grupo quanto ao ocorrido, uma vez que não se trata apenas do uso de algo pertencente à cultura negra, mas também de respeito a mulheres e homens negros e demais pessoas que se encontravam no momento da apresentação. Ficamos a imaginar quantas vezes essa cena de desrespeito pode ter ocorrido anteriormente pelo grupo ou por membros dele, uma vez que a cultura negra é tão rica, bela e cheia de significados que não deveria ser representada da forma como ocorreu na data em questão.

Assinam essa carta:

Cintia Ribeiro (Ciências Sociais UFPR)

Alan Felipe dos Santos (Ciências Sociais UFPR)

Nuno José (Direito UFPR)

Eduardo José de Araújo (História UFPR)

Brinsan N’tchala (Direito Unicuritiba)

Priscila Souza (Socióloga – UFPR)

Natália Luiza (Ciências Sociais UFPR)

Margoth Mendes da Cruz (Psicologia UFPR)

Daiane da Silva Vasconcelos (Psicologia UFPR)

Coletivo Sou Neguinh@ (UFPR)

Jorge Santana (Historiador – UFPR)

Watena Ferreira N’tchala (Engenharia Mecânica UFPR)

Angélica Roxinsky de Carvalho (Ciências Sociais UFPR)

Andressa do Rosário Damaceno (Gestão Ambiental UFPR Litoral)

Elisama Kissenia de Souza (Agronomia UFPR)

Kesia Samay de Souza (Engenharia Florestal UFPR)

Júlio Sérgio da Silva Monteiro (Educador Musical – UFPR)

Camila Maia (Ciências Sociais UFPR)

Débora Fidelis (Ciências Sociais UFPR)

Débora Cristina de Araújo (Doutora em Educação UFPR)

Otavio Luiz Costa (Ciências Sociais UFPR)

[1] CARVALHO, Ernesto Ignacio de. Diálogo de negro, monólogo de branco: transformações e apropriações musicais no maracatu de baque virado. Recife, 2007.

[2]http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/197-da-populacao-de-curitiba-sao-negros-ou-pardos/31360

Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis

No último dia de desfile do bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis, que aconteceu dia 08 de fevereiro de 2015, um dos integrantes que estava em cima do trio elétrico, utilizava uma malha ou tecido da cor preta sobre o corpo, numa tentativa ridícula de se caracterizar como uma pessoa negra, ato este que é conhecido como blackface. O blackface é uma prática racista que existe desde meados do século XIX, sendo utilizada para ridicularizar as pessoas negras, desde a sua cor às suas formas corporais; e por mais que os praticantes do blackface interpretem isso como uma prática carnavalesca sustentada no discurso de que nada mais é que uma brincadeira, ele é sim altamente racista.

blackface

Este tipo de representação faz parte de uma cultura praticada por pessoas brancas, e não representa as pessoas negras e/ou sua cultura no carnaval, mas reitera sim estereótipos e preconceitos. No Brasil essa prática teve início na década de 1950 com a Nega Maluca de Evaldo Ruy, que em nada também representa a mulher negra, pois mulher negra não é fantasia. Todos usam e abusam da imagem das pessoas negras, com seus corpos sendo expostos como mercadoria, momentos como esse do carnaval o negro é cooptado, é disputado, assim como no futebol, mas não há o mesmo interesse em ter o negro como parte das fileiras dos milhares de formandos em medicina, direito, psicologia, odontologia, ou qualquer outro curso de graduação e tudo mais que diz respeito ao desenvolvimento efetivo da população negra e do país.

Está mais do que evidente que a juventude negra vem sendo assassinada e perseguida diariamente. Em 2012, 77% dos jovens assassinados no Brasil eram jovens negros. A juventude negra é massacrada constantemente pelo racismo, seja por palavras ou por atitudes, e a grande maioria dos assassinatos de pessoas negras não é investigado corretamente [1].

É válido lembrar que dois dias antes da última apresentação do bloco carnavalesco, no dia 06 de fevereiro, 12 jovens negros foram assassinados pela PM de Salvador e o governador da Bahia, Rui Costa, apenas declarou que a polícia militar deve agir como artilheiro de um jogo de futebol, pois em poucos segundos tem que decidir como agirá. Um governador que em nenhum momento declarou-se contrário a ação da PM, de matar 12 jovens negros. O massacre da juventude negra acontece diariamente, diante de nossos olhos e é realmente muito triste perceber que existem pessoas que em nenhum momento param para refletir sobre as consequências de suas ações, sobre seus privilégios. Blackface não tem desculpa, não tem explicação! Blackface é racismo! E racismo não pode e não deve ser aceito!

Estamos falando de um país onde a maioria da população não é branca, é negra. Estamos falando de uma realidade nacional onde ser negro, pobre e periférico, é ser visto como marginal, bandido, criminoso. Estamos falando de um país onde crianças e jovens negros não possuem total acesso à educação e são mortas diariamente. Estamos falando de um país que se diverte e dá risada com o blackface no carnaval, reificando a ideia que o negro é um personagem caricato brasileiro, uma coisa que pode ser usada e emprestada quando bem quiser. Pessoas negras não são fantasias carnavalescas para pessoas brancas, são vidas, existem e sofrem com o racismo.

Expressamos, assim, total repúdio ao bloco Garibaldis & Sacis, que com o patrocínio da Fundação Cultural de Curitiba (ou seja, nosso dinheiro também) reproduz um estereótipo grotesco, contribuindo com o racismo da população brasileira ao disseminar esta prática infeliz que é somente mais um dos vários instrumentos racistas que a população negra tem que lidar diariamente. Artistas como estes que tem um grande público e reconhecimento, além de recurso visual e performático, utilizam suas formas de expressões artísticas em favor do racismo, prestando total desserviço e contrariando toda a luta que os movimentos negros vem travando contra o preconceito e contra o mito da democracia racial.

E se existiu blackface em um trio elétrico que era para trazer alegria e diversão às pessoas que estavam em Curitiba no último domingo, nós, pessoas negras, esperamos que nas próximas comemorações carnavalescas, o bloco Garibaldis & Sacis não esqueça que seu público é feito, também, pelas pessoas negras, que certamente se sentiram ofendidas com o racismo escancarado no blackface de um dos seus integrantes. O bloco ou desconhece a história da população negra ou a ignora.

Por fim, exigimos um esclarecimento do bloco Garibaldis & Sacis, pois, mesmo que a sociedade curitibana muitas vezes acabe pensando que não existam pessoas negras em Curitiba, nós estamos por aqui também! Nós, pessoas negras, não queremos que o carnaval se transforme em mais uma data onde o racismo seja veiculado através de “brincadeiras” preconceituosas, onde ele seja assunto velado e pouco discutido. Se é para falar das pessoas negras no carnaval, que se fale de nossos problemas, que nos deixe ser parte da formação do carnaval em Curitiba, pois aos nos colocar como fantasia, nos coloca, mais uma vez, como coisa, objeto sem valor, a carne mais barata do mercado.

Assinam essa carta:

Coletivo Sou Neguinh@ – UFPR

Priscila Souza – UFPR

zahara – UFPR

Eduardo José Araujo – UFPR

Brinsan Ferreira N’tchala

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PARTIU ROLEZINHO?

Por: Priscila Uirá de Souza
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  Muito tem se falado do tal “Rolezinho”, que nada mais são do que o encontro de jovens de bairros periféricos, que se reúnem como muitos jovens por aí fazem, isso não era problema até eles escolherem como ponto de encontro os shoppings de São Paulo.

Opiniões das mais diversas surgem no meio midiático e por fim nos temíveis comentários, e é em ambos que vemos qual a verdadeira cara da sociedade.

           Há quem argumente sobre a ótica social, outros vêem o ângulo racial, mas o que podemos afinal tirar de tudo isso?

           Os rolézinhos hoje são uma forma de resistência, tanto racial como social aos mecanismos que impedem a ocupação de negros e pobres em determinados espaços públicos, tanto geograficamente quanto socialmente. O Brasil ainda tende a separar aqueles que incomodam, e estes são todos que pertencem a esta massa pobre, não branca, gays, lésbicas, transsexuais, e demais grupos sociais considerados diferentes, que ousam ultrapassar o espaço que a princípio não deveria ser seu.

Em entrevista recente ao site Geledés, o professor Alexandre Barbosa, Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que se dedica a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas, indaga o seguinte:

“Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”

Por mais que algumas pessoas não admitam, existe sim uma segregação enraizada na cultura brasileira, e esta segregação é sim social e racial. Da mesma forma que os jovens ocuparam espaços que antes não lhes era permitido nos EUA, os jovens brasileiros de diversos grupos tem se apropriado de espaços antes destinados apenas a um determinado grupo social.

Tudo bem ser preto e pobre, desde que seja bem longe da gente.

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                         Franklin McCain (de óculos) e outros 3 estudantes, em 1 de Fevereiro de 1960, em Greensboro, na Carolina do Norte, sentaram-se no balcão de um snack-bar reservado a brancos. Pediram café e donuts e, quando recusaram servi-los ficaram ali sentados até a loja fechar. Voltaram no dia a seguir e em todos os seguintes – os movimentos de ocupação de espaço chamados sit-ins ajudou a incendiar a luta pela igualdade entre brancos e negros na América dos anos 1960. FOTO: Jack G. Koebes

 
E o Estado o que tem a ver com isso afinal?

A preocupação que mais parece preocupar o Estado é a de se livrar do problema ao invés de resolvê-lo. Não há qualquer interesse em resolver o problema social e racial que se arrasta desde o fim da escravidão.

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Se o Estado não consegue resolver o problema da desigualdade social é melhor escondê-la, como fez o estado do Rio de Janeiro com suas comunidades.

           Tive a oportunidade de presenciar em Curitiba anos atrás (entre 2006 e 2007) algo parecido com o que ocorre hoje nos shoppings de São Paulo. Havia ouvido falar em conversas na universidade que o shopping Estação estava barrando os jovens que eram tidos como “vileiros”, e um dia quando estava indo ao shopping com a minha irmã pude ver com meus próprios olhos o acontecido.

           Logo que estava chegando vi um destes “vileiros” na entrada e após uma abordagem do segurança deu meia volta e se afastou. Perguntei então ao segurança porque ele não estava deixando aqueles jovens entrarem. Segundo ele, há alguns dias atrás havia acontecido uma briga entre eles (vileiros) dentro do shopping e por segurança estavam barrando sua entrada. (A “cidade europeia” Lerniana precisa ser protegida da violência dessa gente e manter o seu estereótipo).

           O Estado então, quando permite que uma liminar seja lavrada para proibir a entrada destes jovens onde quer que seja, está demonstrando sua posição, sendo tal atitude, favorável a uma parcela da população, que é mínima, e precisa ser protegida destes “vândalos” que ainda por cima são funkeiros.

          Vemos vários posts compartilhados como este abaixo, que reforçam de forma equivocada, o imaginário de quem são estas pessoas que participam dos “rolezinhos”: funkeiros, desempregados, arruaceiros e etc. Isto nada mais é que evidenciar, rotular e excluir uma classe social que precisa ser combatida e cuja existência incomoda e envergonha a classe dominante.

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        A ocupação dos espaços sociais incomodam e muito, seja nos shoppings ou nas universidades (como é o caso da política de cotas que gera muita discussão) as políticas de inclusão foram apenas um pontapé na ferida social que o país carrega.

O que a sociedade em geral precisa ter em mente é que (parafraseando o blog Torres da Heresia) se hoje muitos têm uma opinião equivocada acerca dos movimentos que acontecem na sociedade, o que eu posso dizer para essas pessoas é que o mundo só muda quando existem pessoas como nós, que lutam contra os ditames de uma época. Se hoje temos algum tipo de liberdade e democracia é graças aos negros, mulheres e jovens “vagabundos e sem vergonhas” de épocas passadas que estiveram na luta enfrentando os moralismos e as instituições daquela época.

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