Boechat, Malafaia e a Pedrada ou O que de Fato Preocupa as Feministas Brancas?

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Por: Priscila Uirá

Sobre o caso do Boechat tenho que ressaltar algumas coisas sobre a repercussão que está tendo o caso:

Pelo que tenho visto sobre o que foi dito tivemos um primeiro momento de louvação e depois de apedrejamento (além da pedrada que a menina levou). Acusações de machismo e misoginia tem aparecido na rede relacionadas à fala de Boechat  em resposta ao Pastor Malafaia sobre a intolerância religiosa, além de imensas discussões a respeito do quanto ao politicamente correto.

Nós vivemos em uma sociedade em que sexo tende a ser proclamado como resolução de vida, se um homem ou mulher estão de mau humor é por falta de sexo, se uma mulher é lésbica é por que não conheceu um cara que a pegou de jeito, ao estuprador a pena deve ser paga com rola também (e se for de negões – já que a cadeia está cheia deles – melhor), se a mulher trai o homem é porque ele não é bom de cama e por aí vai.

Nossa cultura está envolta em alusões sexuais que permeiam inclusive a linguagem, nossos xingamentos são relacionados às práticas sexuais como: vai tomar no cu, porra, caralho, falta de rola, etc, outros xingamentos são relacionados à mulher como: puta, piranha, galinha, vagabunda, etc, e estão relacionados também às práticas sexuais. Sim são xingamentos machistas que relacionam e denunciam a mulher a uma moral que não deveria ser praticada enquanto os homens seriam a parte livre e isenta de qualquer cobrança sexual, a não ser que ele falhe nesse quesito aí ele vai ser o corno, o brocha…

A fala do Boechat reflete esse aspecto que está incutido na nossa cultura, e que segundo o politicamente correto deveria ser extinguido da mesma, sim, existem termos que acredito que não deveriam ser utilizados dado a carga histórica e sociocultural que carrega de forma camuflada, porém não devemos deixar a questão inicial de lado: a violência causada contra uma criança por conta da intolerância religiosa.

No caso do Boechat, o que as feministas e demais ativistas fizeram foi invisibilizar e silenciar um fato para dar lugar ao outro correspondente de sua luta. Deixaram de lado o fato de uma menina ter sido apedrejada por sua escolha religiosa (no caso o candomblé), uma menina que logo será uma mulher e encontrará um movimento feminista que não intersecciona suas demandas dando vazão a uma expressão antes de tudo.

A existência de vários eixos dentro do feminismo hoje se deve a casos como esse, em que uma questão de violência e intolerância religiosa contra uma criança é invisibilizado para dar luz às outras causas que algumas feministas parecem achar mais importantes.

Alguns feminismos hoje se tornam utópicos na medida em que reclamam roubo de protagonismos sem ver que estão se empoderando em cima de oprimidos também, esse é o feminismo que bate e esconde a mão, essa exclusão que acontece no feminismo ocorre de maneira simbólica, invisível e imperceptível pela não alteridade das mulheres não negras. Quem precisa de Malafaia quando algumas feministas podem executar o serviço?

O modelo de homem ideal da nossa sociedade precisa ser: hétero, branco, cristão. Provavelmente o modelo da mulher ideal seja o mesmo já que não parece ser interessante ao movimento feminista enfrentar Malafaias vida a fora tendo em vista toda a reviravolta que vemos, aliás não vemos, Malafaia, intolerância religiosa e violência física já não é mais o assunto.

Hoje em dia grande parte das pesquisas de gênero se faz através do recorte interseccional, interseccionalidade essa que foi criada pelas feministas negras por não se verem representadas pelo feminismo de classe média branco nos Estados Unidos. Nada muito diferente de hoje em dia, onde vemos nossos problemas serem jogados de escanteio enquanto elas debatem outros assuntos que parecem ser mais confortáveis a elas.

Nós meninas e mulheres negras enfrentamos todos os dias a real violência nas ruas enquanto certas feministas acreditam que a rola do Boechat é o verdadeiro inimigo. Malafaia continua despejando seu ódio livremente enquanto feministas caem nas armadilhas que todo movimento está propenso, acreditando que o inimigo é apenas aquele que está do lado de fora, achando que estão de fato combatendo algo.

Eu prefiro continuar sendo uma feminista negra interseccional a desviar do assunto como fazem as nossas “irmãs” que clamam por sororidade.

Que tal enegrecer o seu feminismo de fato?

audre

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