Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis

No último dia de desfile do bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis, que aconteceu dia 08 de fevereiro de 2015, um dos integrantes que estava em cima do trio elétrico, utilizava uma malha ou tecido da cor preta sobre o corpo, numa tentativa ridícula de se caracterizar como uma pessoa negra, ato este que é conhecido como blackface. O blackface é uma prática racista que existe desde meados do século XIX, sendo utilizada para ridicularizar as pessoas negras, desde a sua cor às suas formas corporais; e por mais que os praticantes do blackface interpretem isso como uma prática carnavalesca sustentada no discurso de que nada mais é que uma brincadeira, ele é sim altamente racista.

blackface

Este tipo de representação faz parte de uma cultura praticada por pessoas brancas, e não representa as pessoas negras e/ou sua cultura no carnaval, mas reitera sim estereótipos e preconceitos. No Brasil essa prática teve início na década de 1950 com a Nega Maluca de Evaldo Ruy, que em nada também representa a mulher negra, pois mulher negra não é fantasia. Todos usam e abusam da imagem das pessoas negras, com seus corpos sendo expostos como mercadoria, momentos como esse do carnaval o negro é cooptado, é disputado, assim como no futebol, mas não há o mesmo interesse em ter o negro como parte das fileiras dos milhares de formandos em medicina, direito, psicologia, odontologia, ou qualquer outro curso de graduação e tudo mais que diz respeito ao desenvolvimento efetivo da população negra e do país.

Está mais do que evidente que a juventude negra vem sendo assassinada e perseguida diariamente. Em 2012, 77% dos jovens assassinados no Brasil eram jovens negros. A juventude negra é massacrada constantemente pelo racismo, seja por palavras ou por atitudes, e a grande maioria dos assassinatos de pessoas negras não é investigado corretamente [1].

É válido lembrar que dois dias antes da última apresentação do bloco carnavalesco, no dia 06 de fevereiro, 12 jovens negros foram assassinados pela PM de Salvador e o governador da Bahia, Rui Costa, apenas declarou que a polícia militar deve agir como artilheiro de um jogo de futebol, pois em poucos segundos tem que decidir como agirá. Um governador que em nenhum momento declarou-se contrário a ação da PM, de matar 12 jovens negros. O massacre da juventude negra acontece diariamente, diante de nossos olhos e é realmente muito triste perceber que existem pessoas que em nenhum momento param para refletir sobre as consequências de suas ações, sobre seus privilégios. Blackface não tem desculpa, não tem explicação! Blackface é racismo! E racismo não pode e não deve ser aceito!

Estamos falando de um país onde a maioria da população não é branca, é negra. Estamos falando de uma realidade nacional onde ser negro, pobre e periférico, é ser visto como marginal, bandido, criminoso. Estamos falando de um país onde crianças e jovens negros não possuem total acesso à educação e são mortas diariamente. Estamos falando de um país que se diverte e dá risada com o blackface no carnaval, reificando a ideia que o negro é um personagem caricato brasileiro, uma coisa que pode ser usada e emprestada quando bem quiser. Pessoas negras não são fantasias carnavalescas para pessoas brancas, são vidas, existem e sofrem com o racismo.

Expressamos, assim, total repúdio ao bloco Garibaldis & Sacis, que com o patrocínio da Fundação Cultural de Curitiba (ou seja, nosso dinheiro também) reproduz um estereótipo grotesco, contribuindo com o racismo da população brasileira ao disseminar esta prática infeliz que é somente mais um dos vários instrumentos racistas que a população negra tem que lidar diariamente. Artistas como estes que tem um grande público e reconhecimento, além de recurso visual e performático, utilizam suas formas de expressões artísticas em favor do racismo, prestando total desserviço e contrariando toda a luta que os movimentos negros vem travando contra o preconceito e contra o mito da democracia racial.

E se existiu blackface em um trio elétrico que era para trazer alegria e diversão às pessoas que estavam em Curitiba no último domingo, nós, pessoas negras, esperamos que nas próximas comemorações carnavalescas, o bloco Garibaldis & Sacis não esqueça que seu público é feito, também, pelas pessoas negras, que certamente se sentiram ofendidas com o racismo escancarado no blackface de um dos seus integrantes. O bloco ou desconhece a história da população negra ou a ignora.

Por fim, exigimos um esclarecimento do bloco Garibaldis & Sacis, pois, mesmo que a sociedade curitibana muitas vezes acabe pensando que não existam pessoas negras em Curitiba, nós estamos por aqui também! Nós, pessoas negras, não queremos que o carnaval se transforme em mais uma data onde o racismo seja veiculado através de “brincadeiras” preconceituosas, onde ele seja assunto velado e pouco discutido. Se é para falar das pessoas negras no carnaval, que se fale de nossos problemas, que nos deixe ser parte da formação do carnaval em Curitiba, pois aos nos colocar como fantasia, nos coloca, mais uma vez, como coisa, objeto sem valor, a carne mais barata do mercado.

Assinam essa carta:

Coletivo Sou Neguinh@ – UFPR

Priscila Souza – UFPR

zahara – UFPR

Eduardo José Araujo – UFPR

Brinsan Ferreira N’tchala

Marjory Rocka

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19 comentários

  1. Para constar à falta de desinformação do(s) autor(es), a fantasia era de NORDESTINO, uma homenagem ao povo que inspira cultural e socialmente os trabalhos do bloco de forma profunda e presente, diariamente.
    O bloco Garibaldis e Sacis, assim como o grupo Mundaréu são dois dos maiores apoiadores e articuladores da cultura popular brasileira em Curitiba.

    1. O fato do bloco apoiar e articular a cultura brasileira não isenta de preconceito, acredito que existem outras formas de homenagear o povo nordestino, além do que, os nordestinos que eu conheço e viram o fato não se sentiram de forma alguma “homenageada”, já que eles não se parecem de forma alguma com aquela caracterização.

    1. já vi outras performances do Nego Chico e elas não estavam caracterizadas desta forma como a apresentada pelo bloco, qual a necessidade disso? Não havia um homem negro disponível para a representação que foi necessário utilizar o blackface?

      1. Cada pessoa escolheu individualmente sua fantasia. O bloco não designou nada a ninguém. No bumba-meu-boi do Maranhão a máscara é muito comum. Inclusive negros a utilizam, pois é assim que o personagem se caracteriza

  2. Acredito que os garibadis e sacis não tiveram nenhuma má intenção e prova disso são todas as manifestações da cultura afro-brasileira que eles sempre nos contemplam com muita dedicação. O que é preciso no Brasil é que a Educação trabalhe desde cedo com as nossas crianças todas essas questões para o racismo não se propagar, nem ações racistas que não tenham essa intenção, aconteçam. Não é apontando o dedo que vamos educar o nosso povo, só a educação nos pode trazer isso.

    Obrigada

    1. Se a gente imagina demais, talvez não seja somente a gente mas o movimento negro quem sabe, ao longo de décadas quem esteja imaginando tbm, pois, há diversas evidências do blackface que foi e tem sido denunciado ao longo dos anos, e este blog como outros representa a resistência e a persistência da luta contra o racismo, e sim vc pode estar do lado de quem vc quiser independente da sua cor, mas nós não vamos deixar de denunciar o preconceito, independente das pessoas reconhecerem ou interpretarem cada uma à sua maneira.

      1. Molecada denuncia tem que ser feita na Delegacia de crimes Raciais e delitos de intolerância, isso se vocês tiverem provas, a não ser que esse blog só queira ganhar curtidas e compartilhamentos, se for isso podem ficar em casa atrás do computador.
        Assim como o pessoal do Garibaldis & Sacis se sentirem constrangidos, ameaçados por falsa denuncia, para denunciar, entre no site da PF na área de Crimes na web ou pelo e-mail crime.internet@dpf.gov.br e pela Delegacia de crimes Raciais e delitos de intolerância.

    2. Assino embaixo. Porque isso seria negativo? Vejo até como homenagem. Acho que algumas pessoas tem problemas com sua própria natureza e veem preconceito em tudo. Tratem-se.

  3. Nota de esclarecimento

    No último domingo dia 08 de fevereiro uma de nossas artistas homenageou um dos personagens mais fantásticos das nossas culturas populares. Ela poderia estar fantasiada de Super-homem, Capitão América ou quaisquer máscaras vienenses e helênicas, mas escolheu o personagem Nego Chico.

    Os Negos Chicos, os Mateus e Beneditos são nossos heróis, personagens vencedores nas labutas de seus dramas teatrais. A máscara do Nego Chico é uma das joias estéticas inventadas pelo povo e largamente utilizada no Brasil, representando um ser fantástico muito presente no imaginário da cultura popular.

    A intenção da nossa companheira foi de fazer elogios a este personagem tão querido. A peça (máscara) que vestiu foi utilizada por anos no espetáculo “Guarnicê, uma singela opereta popular”, em que ajudou o Grupo Mundaréu e suas plateias, país afora, a refletir sobre a genialidade da criação popular brasileira. Podemos dizer que se trata de uma peça de museu, do Mundaréu e da cultura teatral e musical desta cidade.

    O Bloco Garibaldis e Sacis lamenta que o personagem em questão tenha sido motivo de ofensa às pessoas que assinaram a nota (Coletivo Sou Neguinh@, Zahara, Priscila Souza, Brinsan Ferreira N’tchala, Marjory Rocka, Marco de Oliveira e Eduardo José de Araújo) e aos demais que, porventura, tenham se sentido ofendidos também, uma vez que não houve nenhuma intenção do mesmo, apenas a de fazer uma homenagem a um personagem que consideramos parte do panteão de heróis que precisam ser confirmados como preciosidades da nossa dramaturgia popular tradicional. Lamentamos que a nossa manifestação artística tenha ofendido pessoas que participam de uma luta com a qual concordamos e que respeitamos.

    ARCAGS (Associação Recreativa e Cultural Amigos do Garibaldis e Sacis)

    1. q elegância!! Pena ter que perder tempo com bobagens de quem pelo visto passa a vida tentando achar pelo em ovo, com tantos problemas reais por aí! Eu leio a fantasia claramente como uma homenagem! Repudio preconceito e o auto-preconceito tbm..

      1. Ei, companheira, será que é você ou uma pessoa específica quem deve falar para as outras pessoas (leia-se todo um movimento social) se elas devem se sentir oprimidas ou não? Se você realmente repudia preconceito, talvez fosse “elegante” da sua parte dar ouvidos ao que essas pessoas tem a dizer, e não impor seu posicionamento como se ele não pudesse estar do lado do opressor.

    2. Pessoas NEGRAS não são fantasia?
      Então Pessoas Brancas são?
      Então Pessoas AMARELAS são?
      Então Pessoas INDÍGENAS são?
      Então Pessoas EXTRATERRESTRE são?

      Carnaval é carnaval, época onde vale tudo para se divertir, branco se fantasia de preto, preto de branco, homem de mulher, mulher de homem, Japonês de Coreanos, Judeus de Hitler. Imagine se levar a serio esse blog, os desfiles das escolas de samba no Rio não poderia existir, lembrado Da histórica e fantástica comissão de frente da Mangueira de 99, onde foi homenageado varias figuras da cultura brasileira, maioria personagens negros. No carnaval de Antonina então, onde 9 entre 10 pessoas vão de nega maluca.

      O pessoal desse blog deveria ter pensado e conversado com pessoal do Garibaldis e Sacis antes de publicar esse texto. Não é dessa forma que se luta contra racismo e o preconceito. Concordo com algumas opiniões acima, não pode ver racismo e preconceito em tudo, vejo esse texto (Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis) como atitude preconceituosa.

  4. Pelamor de dels…
    Quando é será que vocês vão parar de se lastimar e deixar de agir como pseudo-vítimas?!
    Vão para o inferno com essa historinha de exclusão, de sofrimento, de bla bla bla.
    Ningurm mais pode fazer mais nada nessa vida, nem mesmo no carnaval que os “moralistas”, defensores do “politicamente correto” vem à tona para aparecer de alguma forma, seja na internet, jornal ou tv.
    Repito, vão para o inferno seus frustrados infelizes.

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